Professora da UEL recebe homenagem da Câmara
Senhoras e Senhores, boa noite!
A Câmara Municipal de Londrina tem hoje a satisfação de cumprir um dever histórico ao homenagear uma grande professora e pesquisadora da UEL, Shiduka Itow Jankevicius, filha de um dos mais ilustres pioneiros de Londrina, o imigrante japonês Tatsuma Itow, um dos líderes da colônia japonesa do norte do Paraná e um dos mais destacados fundadores da ACEL.
E para que esta homenagem seja mais bem entendida no contexto histórico em que deve ser inserida, peço permissão à homenageada e aos presentes para resgatar um pouco de nossa história, que também é a história dessa gente de olhos amendoados e de tenacidade férrea que, agricultores na primeira geração de londrinenses, hoje são presença viva e marcante em todas as atividades econômicas, sociais e culturais de nosso município, mas se destaca principalmente no ramo em que nossa homenageada fez história, que é o ramo das ciências biológicas e de todo seu entorno científico.
A história dos imigrantes japoneses no Brasil é pontilhada de sagas de famílias inteiras que, nas três primeiras décadas do século XX, abandonaram a pátria do sol nascente e aportaram primeiramente no estado de São Paulo para trabalhar na lavoura com o sonho de um dia retornar à terra natal em melhor situação socioeconômica, o mesmo sonho acalentado um pouco antes por milhões de italianos, espanhóis, alemães, eslavos e portugueses, todos imbuídos do ideal de “fazer a América”.
O sonho, porém, transformou-se, na maioria dos casos, em pesadelo. As dificuldades da língua, do clima, dos costumes e da política econômica do Brasil transformaram as promessas dos agenciadores de mão-de-obra na crua realidade da miséria em terra estranha. Dos imigrantes europeus que para cá vieram, por exemplo, boa parte retornou à terra de origem, pois, como diziam, se era para passar fome, era melhor passá-la na terra natal.
Mas a maioria ficou, e os japoneses ficaram quase todos. Apesar das desilusões iniciais, apesar da saudade da língua e dos costumes, apesar de todo estranhamento da comida servida nas fazendas de café, apesar da quase impossibilidade de adquirir produtos japoneses nas três primeiras décadas da imigração, muitos ficaram. Ficaram e lutaram, com unhas e dentes – e isso não é mera expressão literária – lutaram com unhas e dentes para tirar desta terra estranha o sustento da família e os meios para construir o futuro.
E hoje, a apenas duas ou três gerações daqueles primeiros imigrantes japoneses que aqui chegaram para ser semi-escravos nas fazendas de café, seus descendentes já se contam entre as etnias mais integradas, mais escolarizadas, mais cultas e de melhor nível socioeconômico desta terra. Tudo fruto do trabalho, da disciplina, do respeito à tradição, do respeito à lei, do cumprimento irrestrito do dever, da tenacidade e da perseverança.
É neste contexto que devemos inserir a homenagem de hoje. Filha caçula de Tatsuma Itow e de Massae Itow, nossa homenageada nasceu em 12 de novembro de 1934, em Bilac, no estado de São Paulo, mas ainda na infância acompanhou a família na mudança para Londrina, onde o pai Tatsuma Itow se destacou como dentista, cafeicultor e um dos líderes das primeiras famílias japonesas em Londrina.
Aqui nossa homenageada fez o então ginásio no Colégio Vicente Rijo, que então funcionava onde é hoje o Colégio Marcelino Champagnat, e o curso científico no Colégio Londrinense da Rua Quintino Bocaiúva.
Formada em Farmácia-Bioquímica pela Universidade Federal do Paraná em 1957, estagiou no Hospital das Clínicas de São Paulo e lá mesmo trabalhou até 1962, quando veio para Londrina fazer parte da criação do curso de Odontologia, que mais tarde faria parte da Universidade Estadual de Londrina. Aqui casou com o professor doutor José Vitor Jankevicius, com quem teve dois filhos.
E na UEL a professora Shiduka lecionou, ininterruptamente, de 1962 até a aposentadoria, compulsória, em 12 de novembro de 2004.
E durante esses mais de 40 anos de dedicação ao ensino e à pesquisa na UEL, a professora Shiduka lecionou microbiologia nos cursos de graduação em medicina, odontologia, farmácia-bioquímica, enfermagem, biomedicina, fisioterapia, ciências biológicas, agronomia e veterinária. No curso de pós-graduação em microbiologia lecionou citologia, fisiologia microbiana e antimicrobianos, genética de protozoários e genética molecular.
Foi também coordenadora do colegiado dos centros de ciências biológicas e rurais, coordenadora de pesquisa e pós-graduação e coordenadora do mestrado em microbiologia.
Especialista em genética molecular pela USP, mestra e doutora em microbiologia e imunologia pela UNIFESP, a professora Shiduka é até hoje – e a história certamente continuará a lhe fazer justiça – uma referência local, estadual e nacional na pesquisa de fisiologia microbiana e genética microbiana.
Delegada da Sociedade Brasileira de Microbiologia e da Sociedade Brasileira de Genética Microbiana, Microbiologia Oral e Doença de Chagas e da Sociedade brasIleira de Protozoologia, a professora Shiduka gerou grande produção científica, que se traduziu em 50 artigos publicados em periódicos, 217 trabalhos estampados em anais de eventos, 19 apresentações em congressos, orientação de 19 dissertações de mestrado e 213 resumos, entre outras atividades que ajudaram a tornar a UEL e londrina um lócus de liderança e de referência na construção da excelência do ensino superior deste país.
Nos anos 40 e 50, quando a jovem Shiduka Itow fez os estudos médios e superiores, eram pouquíssimas as mulheres que já haviam descoberto que, sem estudo, sem formação e sem uma sólida carreira profissional dificilmente uma moça conseguiria viver a não ser à sombra de um homem, fosse pai, irmão ou marido.
Há mais de meio século nossa homenageada já ensinava uma grande lição não só para as mulheres, mas para muitos homens de hoje em dia: sem estudo sério e sem formação acadêmica honesta, a vida cada vez mais será uma semi-escravidão, seja ela em relação ao patrão, ao mercado, ao cônjuge, aos parentes, ao poder público.
O estudo e a formação profissional libertam, ampliam horizontes, clareiam as mentes, dão segurança e liberdade, propiciam a cidadania plena.
E a mulher somente alcançará a plenitude de suas potencialidades quando ela tiver em mãos as rédeas de sua vida, quando, além de não depender, puder empoderar-se e, a partir de então, também ela passar a influir decisivamente nos destinos de sua vida, de sua prole, de sua cidade, de seu estado, de seu país, tornando o mundo mais feminino, mais pacífico, mais compreensivo e menos competititvo.
Não foi uma trajetória fácil, assim como não é fácil a carreira de um professor, não é fácil a carreira de um pesquisador, principalmente quando às dificuldades intrínsecas a essas atividades se juntam as obrigações de esposa e mãe e a capitis diminutio da condição feminina.
É por essas e outras razões que hoje a Câmara Municipal de Londrina entrega à professora Shiduka Itow Jankevicius o Diploma de Reconhecimento Público. Londrina hoje novamente abre os braços e lhe diz: “obrigada, professora Shiduka, por esses 42 anos de magistério, de dedicação, de perseverança, de disciplina e de trabalho, de cumprimento irrestrito do dever, que tanto honram os seus predecessores e tanto orgulham esta cidade e a Universidade Estadual de Londrina”.
Vereador Tercílio Turini